Minimalismo
Jeanne Dielman, 23 Quai du Commerce, 1080 Bruxelles (Chantal Akerman, 1976) – 91
201 minutos de filme NECESSÁRIOS. Em Jeanne Dielman, tudo parece ter uma precisão milimétrica e a maneira como as coisas, e principalmente os pequenos detalhes, se ligam contribui de modo a construir no cenário uma espécie de dramaturgia filmada, e adepto à proposta de Bresson sobre o cinema nunca tentar ser teatro & vice e versa, e com Chantal Akerman destruindo tudo e aparentemente revolucionando o cinema com essa linguagem minimalista, de cenários fechados, com a câmera posicionada frontal e imovelmente, seria correto criticar o filme pelo seu wanna be teatro, mas não creio nessa vontade de se fazer um filme-teatro, pelo contrário, isso é uma conseqüência de uma transgressão à ordem pela qual o cinema vinha se afirmando, em tempos de Taxi Driver, Todos os Homens do Presidente e Carrie.
Enquanto nos Estados Unidos os grandes sucessos eram filmes violentos, escatológicos, políticos, etc, na Bélgica Akerman produzia um filme sobre a vida, por mais clichê que isso possa soar. Um filme acima de tudo corajoso e reflexivo em denunciar o vazio existencial da dona de casa burguesa e viúva, mãe de um filho adolescente, Jeanne Dielman, interpretada magistralmente por Delphine Seyrig, cuja rotina é estritamente mecânica e agonizante (e em certas vezes ganha dinheiro prostituindo-se em casa)
Assim, acompanhamos três dias dessa vida e, por mais lento que o ritmo se afirme, é necessário compreender que mesmo a narrativa prolongada/estendida é uma técnica de persuasão quanto ao vazio de Jeanne, e conforme Akerman dá ênfase às tarefas diárias, os pequenos detalhes rotineiros, somos tragados a fazer parte daquele cenário o qual as ações se desenrolam de uma maneira programada e quase que sutil, até seu final derradeiro e decisivo – enfim, por essas é outras sem dúvidas trata-se de um filme difícil, cuja ideologia nos faz pensar por dias.