Africanos
White Material (Claire Denis, 2010) – 88
Un Homme qui Crie (Mahamat-Saleh Haroun, 2010) – 75
Após assistir White Material, novo e excelente trabalho da Claire Denis estrelado pela Isabelle Huppert, conferi o elogiado Um Homem que Grita, dirigido pelo africano Mahamat-Saleh Haroun, e achei possível estabelecer algumas relações entre ambos os filmes. Formalmente, são diferentes: o filme de Denis é um retrato mais frio e seco do momento de guerra civil que passava a África, e O Homem que Grita rebate a situação de modo mais lírico e sentimental, dado inteiramente aos olhos dos africanos que se desesperam com a situação e procuram ir embora ou refugiar-se – enquanto a personagem de Huppert é uma branca que insiste em permanecer em sua terra (daí o título no Brasil, ‘Minha Terra, África’) para cuidar de sua plantação de café.
Particular e obviamente, principalmente por vir das mãos de Claire Denis, White Material é uma coisa mais brutal, ao mesmo tempo em que se estabelece como um belo retrato da civilização africana durante estes tempos de conflitos, e por isso superior ao filme de Haroun, por vezes radicalista, de um modo manipulador e sentimental, se afirma como um essencial filme anti panfletário, interessante e minuciosamente bonito.
Mas esse radicalismo no entanto não afeta o poder de expressão de Um Homem que Grita, e por mais que algumas tentativas de ser triste/melancólico dentro do discurso familiar de pai para filho seja clichê, por outro lado quando funcionam é um NEGÓCIO – fora algumas outras belas sequências, como a qual uma personagem canta uma música de forma a quebrar o pesado teor psicológico que a guerra civil impõe sobre aqueles africanos no(s) filme(s).
Ao que resta, são dois filmes importantes, que não atendem ao argumento panfletário e nos conduzem à reflexão sobre o poder da imagem em cima das palavras. Filmes contraditórios, de certa forma, mas integral e moralmente relacionados, obras que além de explicitar o momento que aquele continente passa, também indiciam certa coragem quanto à opção de não terem finais felizes – tal como Isabelle Huppert, Youssouf Djaoro e toda sociedade africana, por acaso, não previam.